perfeição - diogo dias lyrics
[verso]
quanto pagarias pa’ chegares à perfeição?
ou melhor, diz*me o que farias pa’ atingires a perfeição?
junta todo o dinheiro do mundo, e ainda não tens um tostão
pra quê subir a escada, se, entre cada degrau, é tudo em vão
reza a história que habitam aspirações desmesuradas
num jovem com um sonho que transcende o ordinário
queria ser fenómeno, digno dum nazário
queria ser o melhor, uma carta fora do baralho
tinha versos, rimas, métrica e ritmo
mas, disperso, não via poética no que fora dito
refugiava*se no quarto, escrеvia um quarto do que pensava
o dobro do que sеntia, mas metade era texto escrito
em estado de confinamento, forjava cada barra
mas, por mais intricada, encarava como falha
exigia a exigência, nada mais do que isso
mas, com tanto sacrifício, sucumbira*se o seu espírito
[bridge]
até que chegou*lhe, à cabeça, uma ideia pérfida
a de que, sem concorrência, seria acima da média
o que acontece é que o dissera, no sentido estrito
assassinar, um por um, pa’ nenhum existir
[verso]
e hoje, absorto, emana peçonha do seu corpo
vai pr’á cozinha e fixa o olho numa gaveta de madeira maciça
toca e sente a superfície fria
corrobora com a frieza que, pouco a pouco, o endromina
mas, em troco, o incita, e, assim, abre
movimenta uma das facas como se empunhasse um sabre
vê o aço a brilhar e pensa se tratar de uma premonição
para uma carreira brilhante, de perfeição
sai de casa, sombrio como a noite
bravio e mortífero, munido duma foice
é a morte em pessoa, agora tudo vai à vida
avista a casa dum antagonista e toca à campainha
ajusta a sua postura, detém*se por um instante
finge que se encontra numa situação frustrante
a vítima, inócua, não antevê o seu fim
quando o convida a entrar, tudo se passa assim:
a faca adentra o tecido humano, rompe camadas de carne
interrompe lhe a respiração, há sangue por toda a parte
o pobre coitado cai no chão, desamparado
vai a mulher ao seu socorro, mas já é tarde
subitamente, com trepidações, o jovem deixa cair a faca
não tinha perspectivado quem podia ‘tar em casa
face à desgraça, arrepende*se do que aconteceu
quando reparo nesse jovem … vejo que o jovem sou eu
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